Um chip na cabeça

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Há muito, muito tempo atrás, morávamos em pequenas comunidades. As mulheres conversaram no poço onde buscaram a água e lavaram a roupa e no domingo as nossas famílias se encontraram no parque. As crianças brincaram, nós trocamos novidades. Sabíamos muito um do outro e sabíamos o que aconteceu fora da aldeia, na medida em que nos interessávamos. Quando um estrangeiro entrou na aldeia, ele foi olhado com desconfiança. A sua confiabilidade foi questionada antecipadamente. Um estrangeiro teve que fazer o máximo para ser aceito. Nós, os aldeões, estávamos acordados e não permitíamos que alguém vendia-nos gato por lebre.

Há muito tempo, a palavra impressa apareceu; livros e jornais e revistas. De repente fomos capazes de decidir por nós mesmos que notícias receber. Em nossas cabeças e casas. Não apenas tudo o que foi escrito foi dado como certo. Tomamos o tempo para trocar ideias com os outros sobre o que lemos e para pensar sobre todas as informações e formar a nossa opinião. O que não gostamos permaneceu do lado de fora da porta.

Há algum tempo o rádio apareceu. Em quase todas as casas, as informações eram obtidas sem sair pela porta da frente ou sem deixar ninguém entrar. Assim, sem tocar na porta, ficava no meio da sala. O governo inicialmente governou os canais e isso tornou o fluxo de informações unilateral. O governo poderia contar todos os tipos de contos de fadas e fornecer informações coloridas sem qualquer verificação da verdade por nós. Foi tão mágico que desenvolvemos uma crença quase cega no que saiu do rádio. Ainda fomos para o parque entretanto e falamos sobre as notícias do rádio. Uma pessoa crítica teve muita dificuldade porque foi a exceção na nossa comunidade tão pequena. No entanto, ainda havia muitas pessoas que pensavam ativamente.

Não muito tempo atrás, a televisão chegou. O governo agora poderia mostrar, por meio de imagens em movimento, o que queria. Ninguém foi ao parque conversar um com o outro, sobre o outro e sobre o mundo. O televisão fez o seu trabalho e ainda faz-o. Amamos ver televisão. Diminui as ondas cerebrais para o estado alfa, o mesmo estado que nos alcança quando dormimos. Nesse modo de sono todos os tipos de informação fluem para as nossas cabeças. Pensamos que esqueceríamos tudo isso, mas isso acabou sendo falso. Nós humanos armazenamos toda essa informação. Em algum lugar. Como software. Só surge quando a situação desencadeia isso. Assistir à TV é fisicamente viciante, porque nos deixa calmos e inativos.

Recentemente, Internet, smartphones e tablets chegaram. O fluxo de informações está crescendo e crescendo. Qualquer seja o ecrã que temos na mão, sempre há alívio para o nosso vício físico. Uma quick fix, de novo e de novo. É reconfortante, é uma fuga da realidade, preenche as nossas vidas e tudo exige pouco esforço. A crença cega no que nos é apresentado é um fato. Se no momento há alguém com uma opinião diferente – alguém que pensa criticamente – então ele é o homem estranho que não entende. Porque imagine que acordamos dessa trip e percebemos que tornamos escravos do consumismo e muito mais.

Num futuro próximo, as crianças de hoje vão querer um chip na cabeça para não precisar mais segurar ou carregar um aparelho e apenas ouvir o que está sussurrar nas suas cabeças. Eles não precisam aprender mais nada, porque a Wikipedia está sempre presente. Aprender na comunidade também é uma coisa do passado; aqueles que gerenciam o chip controlam toda a educação; muito mais fácil do que controlar o povo através duma televisão em cada casa. 1984 é obsoleto.

Quando lias até aqui, pode dizer que sou pessimista. Então digo que tu precisas despertar. Deixe o teu móvel ou tablet, estique o pescoço e olhe ao teu redor. Comece a perguntar-te o que estás a fazer aqui nesta vida. Qual é a essência? Esteja consciente de que acordar é tão difícil quanto desintoxicar dum vício em drogas ou álcool e talvez até mais. Boa sorte. Vale a pena!